AMBIENTE
O texto
que nos é hoje proposto como Evangelho situa-nos em Jerusalém, pouco antes da
Paixão e Morte de Jesus. É o terceiro dia da estada de Jesus em Jerusalém, o
dia dos “ensinamentos” e das polémicas mais radicais com os líderes judaicos
(cf. Mc 11,20-13,1-2). No final desse dia, já no “Jardim das Oliveiras”, Jesus
oferece a um grupo de discípulos (Pedro, Tiago, João e André – cf. Mc 13,3) um
amplo e enigmático ensinamento, que ficou conhecido como o “discurso
escatológico” (cf. Mt 13,3-37).
A maior
parte dos estudiosos do Evangelho segundo Marcos consideram que este discurso,
apresentado com uma linguagem profético-apocalíptica, descreve a missão da
comunidade cristã no período que vai desde a morte de Jesus até ao final da
história humana. É um texto difícil, que emprega imagens e uma linguagem
marcada pelas alusões enigmáticas, bem ao jeito do género literário
“apocalipse”. Não seria tanto uma reportagem jornalística de acontecimentos
concretos, mas antes uma leitura profética da história humana. O seu objetivo
seria dar aos discípulos indicações acerca da atitude a tomar frente às
vicissitudes que marcarão a caminhada histórica da comunidade, até à vinda
final de Jesus para instaurar, em definitivo, o novo céu e a nova terra.
Os quatro
discípulos referenciados no início do “discurso escatológico” representam a
comunidade cristã de todos os tempos… Os quatro são, precisamente, os primeiros
discípulos chamados por Jesus (cf. Mc 1,16-20) e, como tal, convertem-se em
representantes de todos os futuros discípulos. O discurso escatológico de Jesus
não seria, assim, uma mensagem privada destinada a um grupo especial, mas uma
mensagem destinada a toda a comunidade crente, chamada a caminhar na história
com os olhos postos no encontro final com Jesus e com o Pai.
A missão
que Jesus (que está consciente de ter chegado a sua hora de partir ao encontro
do Pai) confia à sua comunidade não é uma missão fácil… Jesus está consciente
de que os seus discípulos terão que enfrentar as dificuldades, as perseguições,
as tentações que “o mundo” vai colocar no seu caminho. Essa comunidade em
marcha pela história necessitará, portanto, de estímulo e alento. É por isso
que surge este apelo à fidelidade, à coragem, à vigilância… No horizonte último
da caminhada da comunidade, Jesus coloca o final da história humana e o
reencontro definitivo dos discípulos com Jesus.
O
“discurso escatológico” divide-se em três partes, antecedidas de uma introdução
(cf. Mc 13,1-4). Na primeira parte (cf. Mc 13,5-23), o discurso anuncia uma
série de vicissitudes que vão marcar a história e que requerem dos discípulos a
atitude adequada: vigilância e lucidez. Na segunda parte, o discurso anuncia a
vinda definitiva do Filho do Homem e o nascimento de um mundo novo a partir das
ruínas do mundo velho (cf. Mc 13,24-27). Na terceira parte, o discurso anuncia
a incerteza quanto ao “tempo” histórico dos eventos anunciados e insiste com os
discípulos para que estejam sempre vigilantes e preparados para acolher o
Senhor que vem (cf. Mc 13,28-37).
ATUALIZAÇÃO DO EVANGELHO
DESTE DOMINGO
Para refletir
e partilhar, considerar os seguintes pontos:
• Antes de
mais, o Evangelho deste domingo coloca-nos diante de uma certeza fundamental:
“o Senhor vem”. A nossa caminhada humana não é um avançar sem sentido ao
encontro do nada, mas uma caminhada feita na alegria ao encontro do Senhor que
vem. Não se trata de uma vaga esperança, mas de uma certeza baseada na palavra
infalível de Jesus. O tempo de Advento recorda-nos a realidade de um Senhor que
vem ao encontro dos homens e que, no final da nossa caminhada por esta terra,
nos oferecerá a vida definitiva, a felicidade sem fim.
• O tempo
do Advento é, também, o tempo da espera do Senhor. O Evangelho deste domingo
diz-nos como deve ser essa espera… A palavra mágica é “vigilância”: o
verdadeiro discípulo deve estar sempre “vigilante”, cumprindo com coragem e
determinação a missão que Deus lhe confiou. Estar “vigilante” não significa,
contudo, preocupar-se em ter sempre a “alminha” limpa para que a morte não o
apanhe com pecados por perdoar; mas significa viver sempre ativo, empenhado,
comprometido na construção de um mundo de vida, de amor e de paz. Significa cumprir,
com coerência e sem meias tintas, os compromissos assumidos no dia do baptismo
e ser um sinal vivo do amor e da bondade de Deus no mundo. É dessa forma que eu
tenho procurado viver?
• Em
concreto, estar “vigilante” significa não viver de braços cruzados, fechado num
mundo de alienação e de egoísmo, deixando que sejam os outros a tomar as
decisões e a escolher os valores que devem governar a humanidade; significa não
me demitir das minhas responsabilidades e da missão que Deus me confiou quando
me chamou à existência… Estar “vigilante” é ser uma voz ativa e questionante no
meio dos homens, levando-os a confrontarem-se com os valores do Evangelho; é
lutar de forma decidida e corajosa contra a mentira, o egoísmo, a injustiça,
tudo aquilo que rouba a vida e a felicidade a qualquer irmão que caminhe ao meu
lado… Como me situo face a isto?
• O nosso
Evangelho recomenda especialmente a “vigilância” aos “porteiros” da comunidade
– isto é, a todos aqueles a quem é confiado o serviço de proteger a comunidade de
invasões estranhas. Todos nós a quem foi confiado esse serviço, sentimos o
imperativo de cuidar com amor dos irmãos que Deus nos confiou, ou demitimo-nos
das nossas responsabilidades e deixamos que o comodismo e a preguiça nos
dominem? Quais são os nossos critérios, na filtragem dos valores: os nossos
interesses e perspectivas pessoais, ou o Evangelho de Jesus?
(Parte do
texto publicado na internet por: P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José
Ornelas Carvalho)


